O jogo das folhas em branco: quando querer agradar sai caro, na vida e na obra
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O jogo das folhas em branco: quando querer agradar sai caro, na vida e na obra

5 de outubro de 2026 · 4 min de leitura
Desenho à mão, em caneta azul, de uma casa com telhado de duas águas e duas árvores ao lado, numa folha branca
Um desenho à mão, numa folha que estava em branco

Esses dias eu vi um vídeo.

Nele, uma mulher começa explicando que os dois têm uma folha em branco e que, em 10 minutos, cada um tem que preencher a sua folha com desenhos.

A câmera está em primeira pessoa e ela fala como se a gente fosse a outra pessoa. Então, como ela gosta do nosso desenho, pede pra gente fazer um pequeno desenho no cantinho da folha dela, e como a gente gosta muito dela, desenhamos.

Ela fica impressionada com o desenho, elogia e, empolgada, pede mais um. Novamente desenhamos.

Ela ama mais ainda e pede mais um. Desenhamos.

Chega assim o ponto em que ela nem pede mais, ela simplesmente entrega a folha e subentende-se que é pra desenhar. E a gente desenha.

O tempo acaba, a folha dela linda e completa e a nossa folha em branco, e ela só fala: "nossa, tu não fez nada."

Esse vídeo me deixou pensando, fiquei com ele o dia todo, refletindo sobre a minha vida, sobre a vida que muitos de nós levamos.

E se a gente dissesse não?

Nesse jogo das folhas, como eu amo ela, como quero agradar, dizer não é a coisa mais difícil de fazer. Mas pensa na versão em que tu diz não. O que aconteceria?

Ela ficaria chateada por um tempo. Tu focaria no teu desenho. Ela precisaria focar no desenho dela.

Isso abre infinitas possibilidades que não surgiram antes. Ela pode descobrir que desenha melhor que eu. Podemos ir trocando as folhas durante o processo e melhorando o desenho um do outro. Podemos trocar experiências e histórias enquanto desenhamos juntos. E, no fim, ter as duas folhas desenhadas em vez de uma feita com pouco esmero, porque mesmo que tu tenha feito o primeiro desenho com carinho, durante os outros pedidos tu já estava incomodado por não conseguir dizer não, ou querendo só acabar logo aquele desenho. Vamos e convenhamos: quem ganhou na primeira versão?

Esse vídeo é sobre relacionamento

Esse vídeo, pra mim, é sobre relacionamento. Entre casal, entre amigos, entre sócios, entre colegas. Ele me mostra como querer agradar, no fim, só prejudica os dois. Claro, primeiro muito mais a nós, mas também, e talvez até pior, o outro. Porque a gente se incomoda e pode, mesmo em outro momento, sozinho, desenhar na própria folha, mas o outro tá com a folha preenchida, confortável, não tem por que querer desenhar mais.

"Na obra eu mudo, eu resolvo"

Sabe, esse vídeo me fala sobre nós mesmos. E levando isso pro nosso dia a dia no trabalho, acontece bastante nas nossas sessões de ArqTerapia (a conversa de escuta que a gente faz com a família antes de desenhar qualquer coisa), quando um do casal fala mais do que o outro, e aceita mais.

Me lembro do caso em que o marido ficava quieto nas nossas reuniões, pouco opinava, deixava a esposa falar e se expressar. Fizemos o projeto conforme ela sonhou. Ficou lindo, e ele também gostou. No estudo preliminar, que é quando mostramos as imagens dos ambientes e a planta baixa, ele viu como ficaria e só ali falou o que queria. Fico feliz porque pelo menos ali ele falou, ali ele desenhou na folha dele. Ainda não era a obra, e era barato alterar no projeto. Só que ele desenhou pouco, e fez isso porque sabia que a obra quem ia cuidar era ele, ele que ia ficar à frente de tudo. É um pensamento errado, mas muito comum, e ficou na mente dele: na obra eu mudo, eu resolvo.

E foi isso que aconteceu. Na obra, a esposa não se envolveu tanto, não entendia nem queria entender muito, porque na cabeça dela o projeto estava pronto e era só segui-lo. Só que o marido foi conversando com os pedreiros, mudando aqui, mudando ali, aceitando as "dicas" deles. Resumo da história: esses dias ele me ligou pedindo pra eu ir na obra, que já deveria estar pronta há mais de um ano, pedindo ajuda com o piso, que não parava de rachar. O pedreiro fez o piso sem malha estrutural (a tela de aço que vai dentro do concreto e ajuda a evitar que ele rache), porque "o solo tá bem socado e eu faço assim há mais de 20 anos". E agora ele gastou material, mexeu num piso que nem era pra ter sido mexido (no projeto, a gente aproveitava o piso que já existia), e está com a folha dele meio desenhada, mas rasgada e furada, que só com durex e cola vai conseguir arrumar. Muito pior do que se ele tivesse desenhado junto, no tempo que os dois tinham, e seguido o desenho que surgiria com os dois desenhando juntos.

É uma pena isso. Esse vídeo me deixou pensando, eu trouxe ele pro meu dia a dia do trabalho, mas pra mim essa analogia das folhas serve pra muita coisa, pra muita gente.

E aí fico pensando nas minhas próprias folhas. Em quantas vezes eu desenhei na folha dos outros por não conseguir dizer não, no trabalho, em casa, com quem eu amo. Será que a minha tá sendo desenhada? Ou tá em branco, esperando o tempo acabar?

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